O Encontro Marcado, escrito de 1954 a 1956, é o romance mais famoso de Fernando Sabino ao lado de O Grande Mentecapto. E, em mais de 50 anos, pouco de seu contexto central mudou.
A participação do estado de Minas Gerais para a literatura brasileira é um dos mais importantes no que constitui seus pilares históricos e qualitativos, gerando com frequência nomes conhecidos e apreciados nacional e internacionalmente. A lista é grande: Tomás Antonio Gonzaga, Cláudio Manoel da Costa, João Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade, Murilo Rubião, Rubem Fonseca, Ziraldo, Pedro Nava, Murilo Mendes, Darcy Ribeiro, Zuenir Ventura, Fernando Morais, Ruy Castro, Affonso Romando de Sant’anna, Luiz Ruffato, Mário Prata. Além desses nomes, integrantes de gerações diferentes, porém contemporâneas, fechando o círculo na capital mineira, estão os Quatro Mineiros, Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende, Hélio Pellegrino e Fernando Sabino. O último deles, autor do “romance de uma geração”, escreveu seu livro mais conhecido – e que viria a se tornar o seu estigma literário – baseando as personagens no grupo com o qual conviveu sua vida inteira – que ia além de Minas, mas tinha sua essência concentrada em seu estado de origem – com uma pequena diferença: o grupo, no livro, eram três, sendo na vida real quatro. Como o próprio Sabino relatou, “as personagens tinham todas um pouco de todos”. Porém, mais do que os outros, todos tinham muito de si mesmo.
O processo de criação (do livro) começou em 1954. Dois anos e mais de três mil páginas depois, restou apenas a edição, na qual o mineiro utilizou pouco mais de 10% do produto final. O resultado foi um clássico em sua definição mais famosa: aquele livro que nunca terminou de dizer o que pretendia. O Encontro Marcado é um romance de formação para quem o lê assim como foi para Sabino escrevê-lo. Não é um livro orientador nem humanizador: a orientação e a humanização acontecem no decorrer das páginas, com todas as condicionantes voltadas para Eduardo Marciano. Orienta sem orientar, apresentando a centena de opções de caminhos das quais ele tem de escolher apenas um, vivendo com a nostalgia dos outros noventa e nove. Humaniza no sentido literal da palavra, ou seja, dá a Eduardo a condição de homem, torna-o humano, condição na qual todos nós, independente do estágio evolutivo, somos capazes, vez ou outra, dos atos mais baixos e vis, primando nós mesmos no instinto mais básico de sobrevivência e autopreservação.
O romance retrata uma sociedade ainda provinciana, patriarcal, como a Minas Gerais dos anos 50 que começava a se industrializar e se conectar mais solidamente com o centro industrial e comercial do país (através da construção da rodovia Fernão Dias). A constituição da família ainda tinha base no pai sustentando financeiramente, a mãe estruturalmente e o filho se preparando nos estudos para assumir, posteriormente, a condição de pai. O preconceito sofrido por Eduardo e seus colegas em relação à prevaricação dos estudos em virtude do exercício de uma ascensão espiritual (atualmente) típica de jovens – o Surrealismo – é outra característica típica do contexto social abordado. O pai quer ver o filho formado em Direito e trabalhando na repartição, posteriormente só querendo o filho com diploma (os cursos superiores citados são somente o Direito, a Medicina e a carreira militar – do aviador Rodrigo -, sendo, na época, as únicas a se escolher). As personagens secundárias são arquétipos dos representantes de uma cidade típica em crescimento: pai e mãe, chefe de redação do jornal, delegado e os amigos, todos constituindo um ambiente espectral, sem composição psicológica – e até mesmo física – mais aprofundada, voltando a atenção para a intenção principal do romance (que não era uma crítica ao ambiente social da década de 50).

Escultura homenageando uma cena recorrente do livro e os Quatro Mineiros - Praça da Liberdade em frente ao Ministério da Educação, Belo Horizonte - MG
De menino no quintal de casa, Eduardo conhece a Morte antes da Vida através do episódio de Jadir, tendo por isso adotado certas filosofias. Os desafios para que atingisse objetivos, não aceitar o que viesse facilmente – a metáfora de colher o fruto verde e deixar apodrecer em suas mãos -, a qualidade de não usufrui de conquistas. Seu medo não era viver, era morrer. A partir disso regra-se e vive em riscos, como subir a ponte pelo parapeito (episódio verdadeiro relatado no livro O Desatino da Rapaziada, de Humberto Werneck), viajar constantemente de trem, hospedar-se em hoteis pequenos. Medo maior de morrer era o de, estando vivo, sentir-se morto. E a Morte esteve presente, realisticamente inesperada, em todas as partes do romance. Mais um motivo para que Eduardo a confrontasse seguidas vezes.
A Vida, por sua vez, andou em círculos. As carreiras de nadador e escritor não deram os frutos ansiados pela personagem. Os namoros e o casamento nunca evoluíram e seu filho – duas vezes por vir – nunca nasceu. Do ofício de jornalista restaram os vários artigos sobre o romance, daí a Vida sempre em prenúncio, jamais em chegada. O método existia nas mãos de Eduardo, mas nunca foi devidamente aplicado – o romance não saiu. Exemplos não lhe faltaram: Toledo era a visão futura de Eduardo, que lhe aconselhou a não seguir o mesmo caminho. Germano (homenagem de Sabino a Jayme Ovalle – nota própria minha) fez o mesmo, insistindo em que o jovem mudasse de visão e de atitudes. Dos cem caminhos, Eduardo optou por aventurar-se e aprender por si mesmo, como fizeram os dois.
À medida que envelhece, Eduardo vai se confrontando com todas as complicações que uma pessoa encara ao passar pela adolescência à vida adulta: romances, dinheiro, traições, convicções, valores que mudam e, como diz o narrador, “momentos que são capazes de decidir todo um destino”. A esta altura resta perguntar: com quem o encontro foi marcado? Obviamente há o pacto em que os amigos de colégio combinam um reencontro, mas seria explícito assim? Ao final Eduardo distancia-se até mesmo de seus colegas mais próximos conforme vai dando um rumo à sua vida, aproximando-se de si mesmo. Mas o que Eduardo fez de sua vida? Um paralelo da vida de Toledo? Um caminho em direção à loucura geniosa de Germano? Dos cem caminhos será que todos levavam a lugares diferentes ou todos terminavam na mesma coisa?
A última escolha apresentada mostra um homem que decide mudar de vida. Larga o emprego, doa seus livros, repetindo sua vida, deixando um legado ordinário, comum, como o pai que nunca foi. Deixa seu passado e sua formação a um jovem e segue sua busca incessante de si mesmo, mostrando-nos que a partir do começo as escolhas são infinitas e que morreremos incompletos. O que nos resta é, no meio de qualquer dos caminhos, irmos nos ajustando, desviando, levantando, sobrevivendo. A angústia, a incerteza e os medos existirão, mas deles não se deve fazer um bloqueio intransponível.
Por todos estes motivos O Encontro Marcado se transformou de “romance de uma geração” para o romance de todas as gerações, tendo em vista que não há quem nunca tenha se questionado em relação às próprias escolhas e hesitado em frente às próprias angústias, incertezas e medos. Quanto a isso resta-nos usar do artíficio de Eduardo e aprender a Vida com os braços e a cabeça, utilizando as experiências passadas como melhor nos convier, fazendo do percurso nauseante uma longa caçada pelo nosso reflexo em uma estrada distante de qualquer espelho.

Os Quatro Mineiros - (da esq. para a dir.) Fernando Sabino, Hélio Pellegrino, Otto Lara Resende e Paulo Mendes Campos





