O Encontro Marcado – Fernando Sabino

O Encontro Marcado, escrito de 1954 a 1956, é o romance mais famoso de Fernando Sabino ao lado de O Grande Mentecapto. E, em mais de 50 anos, pouco de seu contexto central mudou.

Capa de O Encontro Marcado

A participação do estado de Minas Gerais para a literatura brasileira é um dos mais importantes no que constitui seus pilares históricos e qualitativos, gerando com frequência nomes conhecidos e apreciados nacional e internacionalmente. A lista é grande: Tomás Antonio Gonzaga, Cláudio Manoel da Costa, João Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade, Murilo Rubião, Rubem Fonseca, Ziraldo, Pedro Nava, Murilo Mendes, Darcy Ribeiro, Zuenir Ventura, Fernando Morais, Ruy Castro, Affonso Romando de Sant’anna, Luiz Ruffato, Mário Prata. Além desses nomes, integrantes de gerações diferentes, porém contemporâneas, fechando o círculo na capital mineira, estão os Quatro Mineiros, Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende, Hélio Pellegrino e Fernando Sabino. O último deles, autor do “romance de uma geração”, escreveu seu livro mais conhecido – e que viria a se tornar o seu estigma literário – baseando as personagens no grupo com o qual conviveu sua vida inteira – que ia além de Minas, mas tinha sua essência concentrada em seu estado de origem – com uma pequena diferença: o grupo, no livro, eram três, sendo na vida real quatro. Como o próprio Sabino relatou, “as personagens tinham todas um pouco de todos”. Porém, mais do que os outros, todos tinham muito de si mesmo.

Fernando Sabino em casa

O processo de criação (do livro) começou em 1954. Dois anos e mais de três mil páginas depois, restou apenas a edição, na qual o mineiro utilizou pouco mais de 10% do produto final. O resultado foi um clássico em sua definição mais famosa: aquele livro que nunca terminou de dizer o que pretendia. O Encontro Marcado é um romance de formação para quem o lê assim como foi para Sabino escrevê-lo. Não é um livro orientador nem humanizador: a orientação e a humanização acontecem no decorrer das páginas, com todas as condicionantes voltadas para Eduardo Marciano. Orienta sem orientar, apresentando a centena de opções de caminhos das quais ele tem de escolher apenas um, vivendo com a nostalgia dos outros noventa e nove. Humaniza no sentido literal da palavra, ou seja, dá a Eduardo a condição de homem, torna-o humano, condição na qual todos nós, independente do estágio evolutivo, somos capazes, vez ou outra, dos atos mais baixos e vis, primando nós mesmos no instinto mais básico de sobrevivência e autopreservação.

O romance retrata uma sociedade ainda provinciana, patriarcal, como a Minas Gerais dos anos 50 que começava a se industrializar e se conectar mais solidamente com o centro industrial e comercial do país (através da construção da rodovia Fernão Dias). A constituição da família ainda tinha base no pai sustentando financeiramente, a mãe estruturalmente e o filho se preparando nos estudos para assumir, posteriormente, a condição de pai. O preconceito sofrido por Eduardo e seus colegas em relação à prevaricação dos estudos em virtude do exercício de uma ascensão espiritual (atualmente) típica de jovens – o Surrealismo – é outra característica típica do contexto social abordado. O pai quer ver o filho formado em Direito e trabalhando na repartição, posteriormente só querendo o filho com diploma (os cursos superiores citados são somente o Direito, a Medicina e a carreira militar – do aviador Rodrigo -, sendo, na época, as únicas a se escolher). As personagens secundárias são arquétipos dos representantes de uma cidade típica em crescimento: pai e mãe, chefe de redação do jornal, delegado e os amigos, todos constituindo um ambiente espectral, sem composição psicológica – e até mesmo física – mais aprofundada, voltando a atenção para a intenção principal do romance (que não era uma crítica ao ambiente social da década de 50).

Escultura homenageando uma cena recorrente do livro e os Quatro Mineiros - Praça da Liberdade em frente ao Ministério da Educação, Belo Horizonte - MG

De menino no quintal de casa, Eduardo conhece a Morte antes da Vida através do episódio de Jadir, tendo por isso adotado certas filosofias. Os desafios para que atingisse objetivos, não aceitar o que viesse facilmente – a metáfora de colher o fruto verde e deixar apodrecer em suas mãos -, a qualidade de não usufrui de conquistas. Seu medo não era viver, era morrer. A partir disso regra-se e vive em riscos, como subir a ponte pelo parapeito (episódio verdadeiro relatado no livro O Desatino da Rapaziada, de Humberto Werneck), viajar constantemente de trem, hospedar-se em hoteis pequenos. Medo maior de morrer era o de, estando vivo, sentir-se morto. E a Morte esteve presente, realisticamente inesperada, em todas as partes do romance. Mais um motivo para que Eduardo a confrontasse seguidas vezes.

A Vida, por sua vez, andou em círculos. As carreiras de nadador e escritor não deram os frutos ansiados pela personagem. Os namoros e o casamento nunca evoluíram e seu filho – duas vezes por vir – nunca nasceu. Do ofício de jornalista restaram os vários artigos sobre o romance, daí a Vida sempre em prenúncio, jamais em chegada. O método existia nas mãos de Eduardo, mas nunca foi devidamente aplicado – o romance não saiu. Exemplos não lhe faltaram: Toledo era a visão futura de Eduardo, que lhe aconselhou a não seguir o mesmo caminho. Germano (homenagem de Sabino a Jayme Ovalle – nota própria minha) fez o mesmo, insistindo em que o jovem mudasse de visão e de atitudes. Dos cem caminhos, Eduardo optou por aventurar-se e aprender por si mesmo, como fizeram os dois.

À medida que envelhece, Eduardo vai se confrontando com todas as complicações que uma pessoa encara ao passar pela adolescência à vida adulta: romances, dinheiro, traições, convicções, valores que mudam e, como diz o narrador, “momentos que são capazes de decidir todo um destino”. A esta altura resta perguntar: com quem o encontro foi marcado? Obviamente há o pacto em que os amigos de colégio combinam um reencontro, mas seria explícito assim? Ao final Eduardo distancia-se até mesmo de seus colegas mais próximos conforme vai dando um rumo à sua vida, aproximando-se de si mesmo. Mas o que Eduardo fez de sua vida? Um paralelo da vida de Toledo? Um caminho em direção à loucura geniosa de Germano? Dos cem caminhos será que todos levavam a lugares diferentes ou todos terminavam na mesma coisa?

A última escolha apresentada mostra um homem que decide mudar de vida. Larga o emprego, doa seus livros, repetindo sua vida, deixando um legado ordinário, comum, como o pai que nunca foi. Deixa seu passado e sua formação a um jovem e segue sua busca incessante de si mesmo, mostrando-nos que a partir do começo as escolhas são infinitas e que morreremos incompletos. O que nos resta é, no meio de qualquer dos caminhos, irmos nos ajustando, desviando, levantando, sobrevivendo. A angústia, a incerteza e os medos existirão, mas deles não se deve fazer um bloqueio intransponível.

Por todos estes motivos O Encontro Marcado se transformou de “romance de uma geração” para o romance de todas as gerações, tendo em vista que não há quem nunca tenha se questionado em relação às próprias escolhas e hesitado em frente às próprias angústias, incertezas e medos. Quanto a isso resta-nos usar do artíficio de Eduardo e aprender a Vida com os braços e a cabeça, utilizando as experiências passadas como melhor nos convier, fazendo do percurso nauseante uma longa caçada pelo nosso reflexo em uma estrada distante de qualquer espelho.

Os Quatro Mineiros - (da esq. para a dir.) Fernando Sabino, Hélio Pellegrino, Otto Lara Resende e Paulo Mendes Campos

Cinema Paradiso

Das coisas que nos fazem bem, algumas nós descobrimos tarde. Demorei para perceber que gosto de certos tipos de comida (peixe cru, chocolate amargo e bife de fígado), de música (Piazzolla, Chopin, Bach, Liszt e mais atuais como Owen, Minus the Bear, God is an Astronaut, Pete Murray, John Butler, Ray LaMontagne…) e de filmes. Essa talvez seja a parte mais importante desse meu desenvolvimento: descobri que sou apaixonado por cinema italiano. Poucos filmes me deixaram sensibilizado e me fizeram rir como Meus Caros Amigos e Parente… É Serpente de Mario Monicelli e a obra em questão, Cinema Paradiso de Giuseppe Tornatore.

E quando pensamos gostar de cinema surge um filme desses e mostra que sempre existe alguém mais apaixonado ainda. Como escreveu Max Ehrmann, “Não se compare aos outros para não se tornar vaidoso ou amargo e saiba: sempre haverá pessoas melhores e piores do que você”. Mas o foco não é esse. Ao que interessa, pois.

Cinema Paradiso é um filme de 1989 estrelado pelo mestre Philippe Noiret (1930 – 2006. Topázio, Um Olhar para a Vida, A Era de Uranus, O Carteiro e o Poeta) no papel de Alfredo, projecionista do Cinema Paradiso em uma pequena vila siciliana.

A história trata de Salvatore, um famoso diretor de cinema que recebe, em sua casa em Roma,  a notícia da morte de Alfredo. A partir daí um flashback conta a trajetória de Totó – como Salvatore era chamado quando criança – e sua amizade com Alfredo, que lhe servia, além de tudo, como a figura paterna da qual o garoto já não se lembrava mais.

Em duas horas de filme é extremamente fácil gargalhar e se enternecer com as situações encenadas por Totó, Alfredo e os demais habitantes do vilarejo, desde a sineta do padre indicando a censura dos filmes, cortando as cenas de beijos e nudez até as exaltações e xingamentos que, em italiano, ficam muito mais cômicas.

É interessante notar como certos arquétipos são representados, como o padre que se preocupava em dinheiro para reconstruir o cinema enquanto o lugar queimava com Alfredo preso na sala de projeção, o louco que se dizia dono da praça e expulsava todos à noite para fechá-la, os mais ricos que sentavam nas cadeiras superiores e cuspiam ou jogavam bitucas de cigarro nos que estavam embaixo, os garotos fumando e aguardando ansiosamente as cenas quentes das projeções e o resto da população que parava para ir ao Paradiso assistir aos filmes em cartaz.

Mais interessante ainda (e emocionante) é ver como a figura paterna de Alfredo se desenvolve durante as cenas, sendo também um grande ensinador, dizendo-lhe a lição que define todo o filme: ir embora e não voltar mais, buscar algo mais do que aquela cidadezinha, ser alguém, fazer algo e, principalmente, amar o que faz. Ainda ensinou Totó sobre o amor com a fábula do soldado que desistiu na 99ª noite e cumpriu sua promessa inicial, dando-lhe, depois de morto, aquilo que disse guardar para Salvatore quando este ainda era criança. A cena final do filme é uma das mais bonitas e significativas que eu já vi.

Disso posso concluir que não se beija nem se fazem filmes como antigamente. Aposto que muitas pessoas, personagens de Nuovo Cine Paradiso ou não, concordariam comigo.

A Paixão Segundo G.H. – Clarice Lispector

Publicado em 1964 pela Editora do Autor, A Paixão Segundo G.H. é um livro repleto de misticismo quanto ao seu significado. A intenção desta postagem é apresentar meu ponto de vista e torná-lo fonte de discussões ou até mesmo de esclarecimento em relação a alguns aspectos da obra quando do momento de sua leitura.

A Paixão é um livro com enredo simples: G.H. é uma mulher burguesa que mora em uma cobertura no Rio de Janeiro. Vendo-se sem empregada, resolve arrumar a casa por conta própria, começando pelo quarto da empregada, o qual acredita estar um caos. Para sua surpresa, o quarto está deserto, com um desenho na parede e um armário. Crente de que foi a empregada quem desenhou, G.H. resolve abrir o armário, de onde surge a outra personagem do romance: uma barata. Em um ato instintivo, G.H. fecha a porta, prendendo a barata e partindo-a ao meio. A partir daí começa a grande viagem da narradora-personagem.

Clarice faz uso de um recurso muito comum na obra de autores como Marcel Proust e James Joyce, o fluxo de consciência, onde o ponto central é a análise e exploração do tema psicológico, deixando de lado o enredo “superficial”, ou melhor, o enredo inicial. A partir daí, transferimos o sentido do livro do encontro com a barata para o que esse encontro causou.

A análise da quebra psicológica e moral que esse encontro causou é feita em sua totalidade no campo da linguagem. Por isso encontramos diversas associações e repetições de palavras em A Paixão. Experimente pensar em você analisando alguma coisa: as repetições surgem e vão se ajustando à uma linha de raciocínio, quando tentamos esgotar todas as possibilidades do fato analisado, corrigindo-o, analisando-o e muitas vezes enfatizando-o, exatamente como faz a protagonista, elaborando uma série de pensamentos e suposições a respeito de sua transformação no decorrer do romance. Para facilitar eu resolvi trabalhar em tópicos, tentando explicar sucintamente o que cada um representa:

– Obra cíclica: isso é visível ao final e início de cada fragmento, quando a frase que fecha o anterior é a mesma que inicia o próximo. Isso indica uma espécie de “ausência” de começo e fim, onde a narradora-personagem pode interagir com um único fragmento e/ou com o todo, apesar desse todo ser contínuo e inseparável. A continuidade é o que liga o ponto final de uma linha de pensamento ao início de outra linha de pensamento relacionada à anterior. Imaginem uma reta constituída de várias pequenas linhas interligadas. Essas pequenas linhas unem-se umas às outras por pontos – os pontos são as frases que terminam e iniciam os fragmentos. Agora junte uma ponta solta à outra formando um círculo. Essa é a estrutura da personagem e, consequentemente, do romance. O pensamento surge a partir de uma base e se desenvolve em decorrência de várias suposições e conclusões (pontos).

– Demiurgia e transformação: é importante ressaltar que esse romance pode ser classificado em duas palavras-chave. Cíclico e fluxo de consciência. A partir dessa resolução, perde-se o ponto onde uma coisa gera a outra. Podemos dizer que o fluxo de consciência gera o caráter cíclico e podemos dizer também que o caráter cíclico gera o fluxo de consciência. Tenham em mente o modo como vocês pensam: uma conclusão ou uma questão geram uma transformação que gera outras conclusões e questões. A questão é: o pensamento gera a transformação ou é o contrário? Confuso? Vamos ao que interessa. Toda a demiurgia – a criação de um universo em que a narradora-personagem atua – ocorre inteiramente no plano do fluxo de consciência, ou seja, no plano da linha de raciocínio que ela constrói e segue ao mesmo tempo. Essa linha de raciocínio faz parte de uma espécie de “amadurecimento” da personagem, onde ela vai se afirmando seguidamente, conclusão após conclusão, na construção de um novo “eu” – ou como a autora citou na epígrafe, o “não-eu”. A partir que esse “novo-eu” (ou esse “não-eu”) se (a)firma no mundo, surgem novas questões e conclusões, reiniciando o processo de transformação que tende a ser contínuo e infinito. Pegaram o espírito da coisa? Esse raciocínio ajuda a entender o aspecto cíclico e a estrutura da obra. Não é que não existe início e fim, mas o desespero da personagem é tal que perde-se o ponto de início, não sabendo se uma transformação gerou a demiurgia ou se a demiurgia gerou a transformação.

O uso de figuras de linguagem reforça e embasa essa característica cíclica e metamórfica. Polissíndetos e anacolutos principalmente. Antes de tudo, o que são polissíndetos  e anacolutos? Políssíndeto é a repetição constante da conjunção nos períodos de uma oração (“Ali estava eu, boquiaberta e ofendida e recuada”, “O segredo de minha trajetória de orgia e morte e glória e sede”); Anacoluto é a interrupção da frase, onde uma expressão usada no começo dá a ideia principal que se apresenta a seguir (“Olhei-a, à barata”, “Levantei-me enfim da mesa do café, essa mulher”). Os polissíndetos servem para enfatizar a situação e os anacolutos para representar as epifanias e transformações.

PS: Aproveitando a presença da barata, as transformações de G.H. podem ser compreendidas como uma “troca de casca”. Seus valores e suas impressões são constantemente substituídos, restando uma moral nova mais resistente.

– Alegorias e analogias: A começar pelo título do livro, que toma emprestado o estilo de título dos evangelhos bíblicos. Fora isso a referência da numerologia à criação do Universo, os sete dias transformados nas sete horas que ela levaria para arrumar a casa e sentar-se no sofá com o jornal, representando o descanso. E não para por aí. Clarice era judia e muito ligada à Cabala. Na representação cabalística da Árvore da Vida, o número sete representa a Eternidade (Nezah).

Nota: “A Árvore da Vida é uma imagem da Criação. É um diagrama objetivo dos princípios que operam em todo o Universo. Moldada sob a forma de uma árvore analógica, revela o fluxo de forças que descem do Divino para o Mundo inferior e que retornam novamente a ele. Neça estão contidas todas as leis e sua interação. Constitui também uma visão integrada do homem” (“A Árvore da Vida”. Z’ev ben Shimon Halevi. Ed. Siciliano, p.13)

Antes de entrar no quarto ela comenta os treze andares do prédio em que mora (“Olhei para baixo: treze andares caiam do edifício. Eu não sabia que aquilo tudo já fazia parte do que iria acontecer”). Na Cabala o número treze está associado ao poder e à glória, sendo representado, no Tarô, pela Morte. E estão lembrados de que o livro tem trinta e três fragmentos? Na mitologia cristã, Jesus Cristo morreu com trinta e três anos. Na Árvore da Vida está associado à sexta esfera, Tipheret, que é também o centro da Árvore, representando a Beleza.

Fora isso existe uma analogia em relação ao deserto e à mitologia egípcia. Por ser a civilização mais antiga de que se tem relato, é mais uma forma de associação ao surgimento da Vida.

É como se, nos trechos em que não narra a história, a narradora variasse entre uma postura confessional e uma postura exegética, relendo e explicando seu próprio sofrimento e sua angústia em um caminho semelhante ao de Cristo rumo ao Calvário e, posteriormente, à ressuscitação.

Acima de tudo, A Paixão Segundo G.H. pode ser interpretado como um romance de transformação de valores e da moral através de um episódio chocante, onde a personagem vai de encontro a si mesma motivada por uma faísca, uma mecha (no caso, a barata). A partir daí os questionamentos levam-na em direção a um processo metamórfico e evolutivo, gerando então uma mulher que desceu ao íntimo de si e que se conhece mais do que nunca, mais do que ninguém. Dizem que só se ultrapassa um limite chegando até ele e G.H. o ultrapassou ao se colocar no patamar mais primário da condição humana: reduzir-se ao nível de uma barata e devorando sua essência, podendo então crescer sabendo que nada mais iria atingi-la.

Quem gosta de rock nacional pt.3 – Love Bazucas

Antes de mais nada, desculpem pelo intervalo irregular de postagens. Ando em falta com vocês leitores que eu não sei se, onde e em que condições existem. A ausência se deve, principalmente, à indisposição. Não em relação ao espaço do kerniano, não em relação a vocês. Só prefiro não fazer um texto de qualquer jeito e deixar aqui, fazê-lo por obrigação. É um compromisso que fiz comigo e devo isso também a quem lê, ainda que sejam potencialmente virtuais. Feitas as honras, vamos ao que interessa, o objetivo principal da série sobre rock nacional: Love Bazucas.

Goianos + paulista = ótimo projeto

A união entre os interioranos teve seu primeiro trabalho lançado em Março deste ano e, se tem uma coisa que os caipiras possuem, essa coisa é talento – ressalto que o “caipira” não tem sentido pejorativo! O EP homônimo conta com quatro faixas: Destroy this Little Boy, Down on Me, Hug me Once Again e Little Crazy. Gravado no estúdio Costella em Perdizes, São Paulo, o lugar é propriedade de Chuck e inclusive é fonte do trabalho do Vespas Mandarinas, mais recente trabalho do multi-instrumentista. Todas com o peso que merecem e lhes dá identidade, as músicas quebram tudo e já contam com mais de 2500 cliques para download no portal Nagulha, onde foi disponibilizado pela banda. Você pode baixar gratuitamente clicando AQUI.

Destroy this Little Boy é um funk que Chuck vinha guardando na gaveta faz tempo. Mostrou pro pessoal do BDC, Victor fez a letra e deu nisso, uma paulada bem elaborada que me fez imaginar como seria se o Extreme continuasse na mesma linha do álbum III Sides to Every Story sem deixar de colocar o drive a mais que tem o Waiting for the Punchline. É difícil não se conter com o groove da música, sabiamente reforçado (e induzido) pelas palmas e os backing vocals no estilo dos Bee Gees (coisa que o Ozzy soube manter na versão de gravou de Stayin’ Alive). A linha das guitarras é digna de nota por se impor com originalidade sem soar como a única coisa a se prestar atenção – coisa que é presente em todas as músicas. Destroy fez com que o funk continuasse como tem que ser: divertido de tocar e de ouvir. Quem é guitarrista sabe do que eu estou falando. Pra quem não é as risadas no fim da música traduzem o que eu escrevi.

Down on Me, por sua vez, é música pra quem tem V8 e dinheiro para pagar as multas de velocidade. Mais seguro é ouvir dentro de casa com fones de ouvido e o volume no último, se preparando para fazer papel de ridículo quando for pego tocando uma bateria que não existe. A bateria, aliás, foi o que mais me chamou atenção nessa faixa. John Bonham não morreu e foi tocar no LB? Ou só baixou no baterista Douglas de Castro? Tenho a suspeita de que a bateria nunca mais foi a mesma depois de gravarem Down on Me, mais ou menos como o Chad Smith que tem uma caixa por show. Fora isso, o clima de suspense é o ponto alto do que falei no começo. Começa mais singela e muda pra força bruta sem aviso. Ouvir isso em um Dodge Charger deve ser uma das variações de tesão e liberdade.

LB em gravação no Costella

Hug me Once Again é outra faixa do Chuck. Já tinha ouvido no YouTube- e gostado – antes de lançarem o EP. Simples, direta, traz à tona o lado punk do ex-Forgotten Boys e mostra que o potiguar ainda tem o espírito da antiga banda.

Little Crazy é a minha favorita. Nela os caras conseguiram fazer a música soar como um bloco e dar destaque a todos os instrumentos, coisa que poucos conseguem e que é feita com maestria insuperável nas jam sessions do G3. Música com muita pegada que recua e avança na hora certa. Os vocais me surpreenderam e são muito bem executados, em sintonia com o que é tocado. Mais uma vez, destaque para a “cozinha” fraterna Douglas e Denis de Castro que deixaram o pano de fundo impecável e transformaram a música na que eu considerei a melhor das quatro.

Em suma, Love Bazucas é isso: originalidade sem soar estranho, influência adaptada muito distante da cópia e muito talento e capacidade por parte do BDC e do Chuck. Me deixa satisfeito saber que música bem feita tem sido cada vez mais feita e ouvida aqui no Brasil, deixando de lado a música comercial e empresarial que só quer saber de vender. Afirmam o que eu digo as risadas que eu citei anteriormente e que também mostram o mais importante: os caras gostaram do trabalho e se divertiram fazendo o que gostam. Quer emprego melhor que esse?

Quem gosta de rock nacional? pt.2 Chuck Hipolitho

Potiguar criado no interior de São Paulo, o músico foi de esquecido a iconizado no cenário musical brasileiro

“Pai de família que mexe com música, músico, produtor, amigo, psicólogo amador, carrasco, engenheiro de som, nerd e fã dos Ramones.” Assim se define o próprio músico no blog do Estúdio Costella, no bairro de Perdizes em São Paulo, do qual é proprietário e onde tem passado boa parte de seu tempo exercendo aquilo que curte: fazer música.

O ex-Forgotten Boy agora solo.

Chuck começou tocando bateria e surgiu oficialmente no mundo musical brasileiro em 1999, quando, apresentado pelo amigo Fernando Ramone, o substituiu no baixo da banda Forgotten Boys, onde ficaria até o ano passado, tendo, em 2002, trocado o baixo para dividir as linhas de guitarra e vocal com Gustavo Riviera. Todas as funções atuadas com mérito e onde, não à toa, recebeu enorme destaque.

Mas sua carreira não se limitou ao Forgotten: auxiliou o grupo também potiguar The Sinks escrevendo letras e gravando guitarras para o disco da banda, gravou e produziu o EP do Love Bazucas e, atualmente, está trabalhando no Vespas Mandarinas. Tudo isso mais alguns (excelentes) demos no próprio MySpace, mostrando que não trabalha só com som pesado, apresentando algumas músicas mais leves e, como diziam no quartel, desembocando muito.

Qualidade e competência são atributos que não faltaram a esse handyman desde o início de sua carreira profissional. Power-trio de um homem só, o som de Chuck soube tirar o melhor de suas influências sem cair na cópia e na mesmice. Da época do Forgotten, Cumm On e Just Done me fazem imaginar como funcionaria muito bem o som dos Stones com um excesso de peso. Até meu pai, que é meio pé atrás com rock nacional, curtiu quando mostrei. Quanto ao Vespas, a expectativa é grande, mas o esquema promete, como dá pra ver no vídeo disponibilizado no espaço dos caras (linkado acima). É esperar pra ver, torcendo pra que Chuck continue fazendo esse som excelente, colocando tudo sempre na medida certa e deixando o rock do jeito que é pra ser: com atitude, personalidade e tesão pela música, coisas que o rapaz mostra que tem de sobra e que sabe usar bem.

Alguns links pra quem quiser saber mais sobre o Chuck: Twitter, MySpace e YouTube.

Próxima postagem traz a parte final, apresentando o som do Love Bazucas!

Atualizando: @ChuckHipolitho: @guirbperes Massa! Valeu! E Muito massa o Heart Of Darkness! Mandou bem! Apocalypse Now! está no meu TOP5. Valeu bro!

CARALHO!!!

Quem gosta de rock nacional? pt.1 Black Drawing Chalks

Algumas bandas andam fazendo o diferencial na sonoridade brasileira. O Love Bazucas já nasceu gigante e quebrando tudo.

Não duvido nada da qualidade do resultado final quando os coeficientes da equação são: gente com tesão pelo que faz mais experiência. Ser apaixonado por música e ter um currículo invejável são qualidades presentes nos músicos do projeto que surgiu no início de Março aqui no Brasil. O Love Bazucas é o resultado da junção dos goianos do Black Drawing Chalks com o multinstrumentista ex-Forgotten Boys, Chuck Hipolitho. Gravado no estúdio de Chuck, o Costella, o EP homônimo foi disponibilizado gratuitamente no portal NaGulha e você pode baixá-lo clicando aqui (nesse link também estão disponíveis o diário de gravação e entrevistas com a banda e com o Chuck). O objetivo desse “especial” é apresentar as duas bandas e o resultado final.

Black Drawing Chalks.

Denis de Castro (baixo) e Victor Cunha (guitarra)

Os carvões incluem designers, arquitetos e roqueiros. Tocando e mantendo vivo o grande stoner rock, o Black Drawing trouxe, em 2007, com o álbum de estreia Big Deal, um som mais pesado ao cenário independente do Brasil. Disco elogiado, logo os goianos tocaram em grandes festivais do Brasil. Em 2009 lançaram seu segundo disco também pela gravadora conterrânea Monstro Discos e receberam três indicações ao VMB2009 (Aposta MTV, Rock alternativo e Videoclipe do ano) . As capas dos dois discos e o clipe indicado (My Favorite Way) foram feitos pelos membros do grupo, que coordenam o Bicicleta Sem Freio, estúdio de design que produz conteúdo voltado principalmente para a música.

BDC_Bicicleta

Capa de Life is a Big Holiday for Us (arte do Bicicleta sem Freio)

Entre os festivais que contaram com o Black Drawing estão o Abril Pro Rock, no qual em 2009 os caras tocaram ao lado de bandas como Motorhead, Matanza e AMP e o Canadian Music Week, festival gringo importantíssimo e um ótimo recheio pro currículo dos goianos.

Segundo a própria banda, muito de sua influência é coisa nova e coisa antiga. É possível identificar coisas do Black Sabbath, Lynyrd Skynyrd e, na minha opinião, muito da caipirada americana genial do Maylene and the Sons of Disaster. Mas eles também admitiram que curtem outras coisas como Queens of the Stone Age e Kings of Leon.

Seguem aqui links para os clipes My Radio, My Favorite Way (clipe indicado ao VMB e produzido em conjunto com a Nitrocorpz, que também faz as vinhetas da MTV) e o vídeo do guitarrista e vocalista Victor Rocha explicando como tocar a minha favorita Magic Travel.

O Black Drawing Chalks é composto por Victor Rocha na guitarra e vocal, Renato Cunha na outra guitarra e no backing vocal e os irmãos Denis e Douglas de Castro no baixo e bateria respectivamente.

MySpace do BDC pra quem quiser ouvir.

Na próxima parte do especial: apresentação de Chuck Hipolitho nos mesmos moldes dessa aqui!

O Coração das Trevas pt.2

Desde sua saída para a companhia belga e, então, para o percurso de descida do rio e o encontro com Sr. Kurtz – uma das figuras mais míticas da literatura ocidental -, Marlow inicia, cada vez mais longe de casa e dentro da selva, um encontro consigo mesmo e com sua visão a respeito do mundo em que se encontra. Assim como essa obra de Conrad é uma narrativa dentro da narrativa, o percurso de Marlow é uma jornada dentro de uma jornada, rio abaixo, rumo a si mesmo, como disse Hélio Pellegrino, “pobre e nu dentro da treva”. À medida que, sendo capitão do barco, lida com problemas inerentes à sua viagem, ao mesmo tempo aprende a ser comandante de si mesmo face aos episódios que presencia.

Romance de caráter impressionista, é de se esperar d’O Coração das Trevas algo extremamente imagético e descritivo quanto a paisagens e sentimentos. O homem-animal, instintivo, é tão personagem da história quando Marlow e Kurtz e essencial para o desenvolvimento dessas duas personagens em relação à narrativa e vice-versa. Isso talvez seja visível através (e a partir) dos trechos citados na primeira postagem sobre o livro.

Pessoalmente, o livro foi, no momento de leitura, de uma companhia e fidelidade caninas. Aquele tipo de livro em que lemos o que pensamos. E acho interessante esse tipo de encontro consigo mesmo quando nos vemos “dentro da selva“, tendo como recurso nada mais que nossos pés, mãos, cabeça e capacidade de acreditarmos em nossa “força inata” e na “capacidade de sermos fieis a nós mesmos“, como escreveu Conrad. Esse questionamento da natureza humana é recorrente na literatura. Como exemplo cito a segunda e terceira partes d’O Encontro Marcado, já citado anteriormente, de Fernando Sabino e, principalmente, O Estranho Misterioso, de Mark Twain. O pouco tempo que passei no Exército me ensinou muito a respeito dessa “força inata“, que surge quando pensamos não aguentar mais um segundo. O bom de descobrir essa força é que ela nos leva além dos “indivíduos comuns lidando com seus negócios na certeza da perfeita segurança“, nos tornando, como na música com letra de Olavo Bilac, “imune de ação vil”.

Não mais nos atingimos por “acidentes de superfície“. Certas complicações se tornam simples e o impossível se torna uma questão de tempo e método. O limite é nossa própria consciência. Como participar dessa superação por meios convencionais, felpudo na cadeira e no ar condicionado, não sei. Mas passei fome, frio, sono, dominei a dor e o medo e superei dificuldades. A crença nunca desapareceu, pelo contrário – aumentava a cada instante; e ia além, voltando-se para mim. Quando nos conhecemos desse jeito, qualquer ataque é inofensivo. Talvez seja isso o que Conrad quis dizer ao sentenciar que se “sentia bastante seguro de que não tinham condições de saber” o que ele sabia. Uma vez no limite, qualquer lugar é de fácil trânsito.

Saindo da abstração, preciso citar antes que eu esqueça: a obra sofreu uma adaptação para o cinema em 1979, por Francis Ford Coppola, com o nome Apocalypse Now, com Martin Sheen no papel de Willard (o Marlow de CdT) e Marlon Brando como Kurtz. Antes de mais nada, a história do filme é diferente da do livro, mas o contexto central é o mesmo: a narrativa foi ambientada no Vietnã, no período da guerra. As filmagens foram tão sinistras quando a história, com ameaças de suicídio por parte de Coppola e um enfarte de Sheen durante os três anos de produção do filme. Vale ressaltar também as citações literárias no filme: uma das frases mais famosas (“Mistah Kurtz, he dead!”) virou epígrafe do poema The Waste Land, de T. S. Eliot, autor do poema The Hollow Men, que Marlon Brando lê para Martin Sheen no seu primeiro encontro em Apocalypse Now.

O filme ainda levanta questões importantíssimas socialmente para a época nos Estados Unidos, como o envolvimento do governo nas ações internas das Forças Armadas americanas (a missão de Willard é exterminar Kurtz with extreme prejudice) e o estereótipo do soldado americano como o soldado comum e alienado à situação, que não sabe para onde vai, porque vai e qual o motivo real de sua luta.
Minha intenção com tudo isso não é ser um estímulo de leitura, mas, se for, excelente. É um ótimo livro, ainda que o começo seja lento, como o barco de Marlow iniciando a longa descida do rio.

Adicionais: trailer de Apocalypse Now; The Hollow Men e The Waste Land (disponível para download), poemas relacionados ao filme inspirado em O Coração das Trevas.